Promoção da saúde: quais são os desafios do Brasil?

Desde a década de 1970, alguns dos países mais desenvolvidos do mundo realizam trabalhos com foco em promoção da saúde e prevenção de doenças. No Brasil, esse esforço se iniciou alguns anos mais tarde e ainda carece de aperfeiçoamento em diversos pontos.

O atual estágio da promoção da saúde no Brasil foi o tema de uma entrevista recente com o Dr. Carlos Del Nero, profissional com ampla experiência em gestão da saúde. Confira a seguir os principais tópicos abordados pelo médico e como o Brasil pode caminhar para dar uma melhor assistência à sua população em todas as fases da vida.

Brasil tem problemas anteriores à promoção da saúde

Para um país tratar de forma consistente o tema da promoção da saúde, é importante que ele avance em indicadores sensíveis que decorrem de problemas estruturais. Um exemplo é a mortalidade infantil, que ainda apresenta uma taxa elevada no Brasil.

Más condições de saneamento básico e a carência em cuidados essenciais contribuem para a mortalidade infantil. Somam-se a isso a falta de organização dos serviços de saúde e o difícil acesso devido à distância das pessoas que vivem em regiões remotas. “Toda a estrutura da sociedade tem de evoluir para superar problemas como a mortalidade infantil”, aponta Del Nero.

SUS representou um avanço significativo

O Sistema Único de Saúde (SUS), criado em 1988 com a nova Constituição brasileira, foi um avanço importante para o país. Questões graves como a mortalidade infantil, a desnutrição e as doenças crônicas não atendidas foram atenuadas com a universalização da saúde.

“A implementação do SUS acabou com a barreira do acesso. Mais médicos passaram a atender pessoas em todas as regiões do país e doenças decorrentes da falta de saneamento básico diminuíram à medida que o Brasil se desenvolveu”, afirma Del Nero.

Além disso, a consolidação do SUS também foi o ponto de partida para projetos mais focados em promoção da saúde e prevenção de doenças.

Como a promoção da saúde evoluiu no Brasil

Uma das razões para os avanços da promoção da saúde no Brasil foi o impacto que doenças graves como o câncer têm sobre os cofres públicos. Soma-se a esse fator a perspectiva de salvar milhões de vidas por meio de medidas de prevenção.

Em relação ao custo elevado que as doenças geram, Del Nero aponta que o interesse de muitos médicos é antigo. “Ainda na década de 1980, a área médica passou a alertar os governantes a respeito da necessidade de ações de promoção da saúde. No entanto, houve certa demora das autoridades, que só passaram a dar a devida atenção quando o impacto dos custos da saúde se tornou ainda mais severo.”

Nos últimos anos, ações de conscientização ganharam mais espaço e o governo passou a investir de forma organizada em promoção da saúde. “A prevenção é a melhor forma de preservar a saúde e também os cofres públicos”, observa o médico.

A necessidade de colaboração entre poder público e rede privada

Uma colaboração maior entre o poder público e a iniciativa privada tem grande potencial de sucesso. O manual de promoção da saúde, criado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar nesta década, é um exemplo positivo de cooperação entre o público e o privado.

“É fundamental pensarmos o sistema de saúde como um todo, sem separar tanto o público e do privado. O diálogo tem de ser menos truncado, com prioridade para os interesses em comum. É tudo uma questão de sentar na mesma mesa e criar uma complementaridade”, sugere Del Nero.

Um exemplo da dificuldade de diálogo e interação entre poder público e rede privada é a vacinação. Em muitos casos, a mesma vacina é oferecida gratuitamente pelo governo e de forma paga pela rede privada. E essa duplicação das vacinas gera confusão na população. Muitos supõem que a vacina gratuita pode ser de qualidade inferior, embora não exista evidência alguma disso.

Promoção da saúde deve ser ação contínua

As ações de promoção da saúde tendem a ser mais efetivas quando existe uma continuidade dos projetos. À medida que as doenças são controladas, sobra mais verba para a promoção e o governo deve manter os investimentos para evitar ainda mais os custos decorridos pelas doenças.

Em 2019, tivemos um exemplo de como as ações de prevenção e promoção precisam de continuidade. O aumento expressivo no número de casos de dengue se deve, em grande medida, à redução das ações de conscientização. “Houve um relaxamento do governo após os ótimos índices em 2018. As autoridades acreditaram que os números se manteriam mesmo sem as ações preventivas, mas o resultado foi muito negativo”, adverte Del Nero.

Bons exemplos internacionais a serem seguidos

Iniciativas observadas em nações desenvolvidas e também em países em desenvolvimento devem servir de inspiração para o Brasil. Na África do Sul, por exemplo, onde engravidar ainda antes da juventude muitas vezes é visto como algo positivo, foi realizado um excelente programa de conscientização sobre a gravidez na adolescência.

Para vencer essa barreira cultural, investiu-se em um trabalho amplo para explicar aos sul-africanos quais são os riscos de uma gravidez na adolescente, principalmente por conta de o corpo da mulher não estar totalmente desenvolvido.

Saiba mais sobre promoção da saúde e prevenção de doenças

A realidade brasileira em promoção da saúde e prevenção de doenças evoluiu nas últimas décadas e tem de avançar mais nos próximos anos. Para entender melhor os dois conceitos, sugerimos a leitura de outro artigo do nosso blog. Clique aqui e acesse.